Breve crítica sobre o PCN de História e o discurso construtivista no ensino brasileiro

O PCN de história, assim como os PCNs de outras disciplinas curriculares, cotidianamente são utilizados pelos professores como "verdades absolutas" que devem ser seguidas à risca para um ensino efetivo. Não se faz uma observação crítica dos objetivos por trás de seu discurso e os resultados ocorridos em dimensão educacional ou até mesmo social. Essa concepção é introjetada através dos programas do MEC, objetivando moldar o ensino escolar aos ditames da política capitalista.
Notoriamente observamos a força do discurso construtivista em cada conceito e diretriz estabelecida na proposta. É um discurso alienante e que retira do ensino escolar o seu maior objetivo: levar aos alunos a apropriação do conhecimento acumulado historicamente, não do senso comum.
O ensino, na perspectiva do PCN de história, tem  como ponto de partida a realidade de cada aluno (o que vivenciam no cotidiano), sendo articulada constantemente com as noções mais gerais de História. O que percebemos aí, é nada mais do que uma mistura inadequada de saberes diferentes, todas postas como a mesma coisa no processo ensino-aprendizagem. Isso acaba obstruindo a capacidade de abstração dos alunos, de teorizar amplamente os conceitos, deixando-os presos aos conceitos cotidianos . Em outras palavras, apenas aprenderão aquilo que for capaz de ser associado com o cotidiano. A escola não deveria priorizar tanto esse saber do "senso comum" em detrimento do saber sistematizado. Esse sim é o não conhecido que deveria estar como objeto primordial no currículo escolar, livre dessas misturas prejudiciais ao conhecimento específico. 
Fala-se em um currículo flexível, elaborado conforme as necessidades dos alunos. O conhecimento, neste sentido, é moldado aos interesses deles e coaduna com a perspectiva de privilegiar o saber vivenciado por cada no cotidiano. Isto acaba privando dos mesmos a possibilidade de se apropriarem de instrumentos imprescindíveis para a transformação não só do aluno particular, mas também,  de uma realidade social que é percebida de forma mais geral e coletiva. A escola, portanto, deve instrumentalizar de conteúdos não ensinados ou aprendidos em outros lugares.
Outro fator que acaba prejudicando a efetivação do ensino científico é a exacerbada valorização da pesquisa, e a reelaboração dos conhecimentos estabelecidos. De certa forma é uma maneira de desvalorizar o saber produzido historicamente, levando-o a interpretações e associações infundadas. Com isso, não se pretende afirmar que os estudantes são incapazes de produzir, ou diminuir o valor da criticidade individual, mas, em reafirmar o caminho necessário até chegar a estes pontos: a apreensão dos conteúdos científicos. Os resultados escolares mostram o quanto este saber tem sido secundarizado. Portanto, a formação de uma aluno pesquisador acaba retirando dele a instrumentalização necessária para uma aprendizagem capaz de transformar.
A ideia de conteúdos apropriados a faixas etárias é uma outra questão baseada no construtivismo. Diz-se aí, que o desenvolvimento psicológico da criança deve estar adequado para haver introdução de certos conteúdos. Ou seja, só se deve ensinar o que sua idade (dos educandos) é capaz de absorver. A perspectiva histórico crítica - vertente marxista, tendo como principal teórico Dermeval Saviani -  afirma que o conhecimento é que deve guiar esse desenvolvimento, deve-se ir além daquilo que o aluno já consegue realizar ou já sabe.
Nos objetivos delineados no PCN para o ensino de história é deixado de lado um fator sem o qual nenhum conhecimento faria sentido: a superação da realidade para uma transformação social. A ausência deste ponto é justificável quando verificamos a intenção existente - por trás dessa linguagem romantizada  e comum no ideário educacional brasileiro -  em manter a realidade tal como se encontra, através da alienação normalmente não conscientizada. A escola, portanto, não é neutra nesse processo e é fundamental para perpetuação das relações entre opressor e oprimido na luta de classes sociais. 
O que podemos deixar como reflexão é a possibilidade do professor em romper com as ideologias políticas e sociais, promover uma prática transformadora e libertadora contra as posturas reacionárias tão presentes em discursos mascarados como nos PCNs. O tempo mudou rótulos, programas educacionais e lideranças políticas mas, infelizmente, as mesmas concepções pedagógicas permanecem e refletem em um país de educação de péssima qualidade. O professor consciente e revolucionário, porém, deve estar ciente de que a mesma educação mantenedora da alienação, pode ser capaz de promover a emancipação. Enfim, podemos escolher qual pratica delineará nossas ações como educadores. 

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